Museu da Cidade

Missiva #11
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Albrecht Dürer
Visão de sonho (sonho apocalíptico), 1525
Aguarela sobre papel, 30x43cm
(Kunsthistoriches Museum, Vienna)

[Texto escrito pelo artista embaixo da aguarela]
Em 1525, durante a noite entre quarta e quinta-feira depois de Pentecostes, tive essa visão durante o sono e vi quantas grandes águas caíram do céu. A primeira atingiu o chão a cerca de 6,5 km de distância com uma força tão terrível, enorme barulho e respingos que afogaram todo o campo. Fiquei tão chocado que acordei antes do estouro das nuvens. E a chuva que se seguiu foi enorme. Algumas das águas caíram a certa distância e outras por perto. E vinham de tamanha altura que pareciam cair a um ritmo igualmente lento. Mas a primeira água que atingiu o chão tão repentinamente caiu a uma velocidade tão grande, e foi acompanhada pelo vento e um rugido tão assustador, que quando acordei todo o meu corpo tremia e não pude recuperar por muito tempo. Quando me levantei de manhã, pintei o que precede como o tinha visto. Que o Senhor possa fazer que tudo melhore.

“Em 1500, milhares de pessoas no sul da Alemanha acreditavam que o fim do mundo não estava longe. Eram flageladas pela fome, grassava a peste e além disso tinha aparecido um novo mal, a sífilis. Os conflitos sociais, que iriam terminar na revolta dos camponeses, intensificavam-se de dia para dia. Os trabalhadores e camponeses deixavam as suas terras, tornando-se nómadas à procura de pão, de vingança e da salvação no dia em que a fúria de Deus deixasse que chovesse fogo sobre a terra, no dia em que o Sol se apagasse e os céus se enrolassem e desaparecessem como um manuscrito.
Dürer que durante toda a sua vida se ocupou com a ideia da morte próxima, deixou-se influenciar pelo pânico geral. Foi nessa época que executou a sua primeira série de xilogravuras dirigida a um público relativamente grande, um público popular. O tema dessas obras era o Apocalipse”.
John Berger, Dürer: um retrato do artista, 1985.

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