Sítio Invisível

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O MdC constrói-se entre o céu e o solo

Cadernos de esboços de Daniel Silvestre

10 Outubro 2020

 

Depois da forte presença do Museu da Cidade nesta edição da Feira do Livro do Porto, continuamos a construir um museu à escala da cidade.

Os trabalhos de capacitação dos espaços físicos para acolher os projetos museológicos prosseguem no Reservatório, estação que inaugura no início do próximo ano, e na Extensão do Douro, casa que vê os seus trabalhos concluídos em breve, seguindo-se a Extensão da Indústria e a Bonjóia Extensão da Natureza que arrancam no próximo ano. Soma-se a este, um trabalho invisível que coloca em relação os diversos agentes do Museu da Cidade, desde arqueólogos a conservadores, historiadores e demais técnicos, com as comunidades localizadas nas geografias das estações, em contacto com interlocutores, associações e escolas que ali habitam. Arrancando em outubro, a mediação é ativada por um conjunto de oficinas, escutas e derivas desenvolvidas pelos BOA – Bombarda Oficina de Artes, Teatro do Frio e o colectivo Espaço Invisível e permite a construção de um museu enquanto fórum onde também se constrói e vive a cidade.

 

Nas manifestações visíveis, a 30 de outubro inaugura mais uma exposição no Gabinete do Desenho da Casa Guerra Junqueiro. Prelúdio e Fuga, título da exposição individual de Jorge Feijão, alude ao caráter musical da instalação. Entre o esquiço e o acabado, a luz e a escuridão, a velocidade e a ponderação da mão e do pensamento, a imensa série de desenhos, de pequeno formato, constitui-se como um imenso palimpsesto de motivos que se assemelham a um atlas de imagens, próximo dos primeiros museus, justamente conhecidos por “gabinetes de curiosidades”. O desenho é, para Jorge Feijão, prática e temática. Cordão umbilical da memória e infância.

Em dezembro abre a Extensão do Douro. Situada em plena Ribeira, na Rua da Reboleira números 33-37 foi concebida como um posto avançado da região vitivinícola. A sua programação respeita um ritmo sazonal e capta um voo descendente e ascendente. A união ancestral do homem com a natureza é convocada nesse voo circular: do céu em direção ao solo – o território, clima e o efeito da água e da temperatura na superfície dura do xisto, as mãos que o trabalham num ato de resistência; e do solo de volta ao céu – da germinação à recolha do fruto e a alquimia da transformação da uva. Na estação 11 provamos um vinho com o rio no horizonte, mas também descobrimos o Arquivo do Vinho, lugar para tertúlias. Aqui, desconstrói-se a ideia de que o Porto é mera alfândega, mas antes um lugar onde o vinho matura e repousa. Um convite que é também um ponto de partida para a descoberta desta região demarcada.

 

Douro–Terra e Atmosfera ecoa a exposição inaugurada na Cité du Vin Bordéus, em 2018, que no ano seguinte transitou para o Reservatório da Pasteleira. A primeira montagem desta estação propõe uma sondagem material, geológica e atmosférica do território duriense, guiada por vozes, entre poetas e especialistas de várias disciplinas, que fazem aceder o visitante a um deslumbrante e complexo ecossistema facetado, a duas mãos, pela natureza e o homem. Pedro André concebe a aura sonora que é aliás a componente que inscreve as demais estações, ainda antes da sua abertura. Várias ações desenvolvidas em colaboração com a Orquestra Filarmónica Portuguesa e outros artistas sonoros como Pedro Tudela, Pedro Augusto, Hugo Carvalhais são exemplo disso. Ainda nesse espaço imaterial e aéreo, abre-se o Gabinete Atmosférico, canal online de partilha com os públicos. Em tempos de distanciamento físico e conexão mediada, o eixo sonoro continua a propagar-se ao desenhar a ligação sónica entre todas as estações, e a Rádio Estação passa a habitar o sítio invisível do novo website-museudacidadeporto.pt.