Museu—modo de usar

Diretor Artístico do Museu da Cidade

Nuno Faria

 

O Museu da Cidade é um museu municipal. Na sua atual configuração, é o mais recente dos três vértices de programação que, nos últimos sete anos e no âmbito da sua ação cultural, a Câmara do Porto delineou e vem produzindo.

 

É um museu à escala da Cidade que se estende entre as zonas ocidental e oriental da cidade e que cobre um território muito heteróclito do ponto de vista social e geográfico.

 

Um Museu-Rizoma, que tem na multiplicidade, na expansão horizontal e na heterogeneidade as suas mais distintivas características.

 

Qual nova linha de Metro, é composto por 17 estações ou extensões, que incorporam espaços de natureza tão diversa como sítios arqueológicos, lugares da água — um reservatório, uma galeria subterrânea —, casas, espaços industriais, espaços com jardins ou que existem no interior de parques ou quintas, as bibliotecas públicas e o Arquivo Histórico.

 

A expansão, a ação do Museu no território da cidade, está fragmentada em cinco eixos, que são, em simultâneo, formas de ler as dinâmicas urbanas, históricas, materiais ou invisíveis da Cidade. Os eixos, divididos por tipologias — sonoro, material, líquido, romantismo e natureza —, rasgam possibilidades de sondagem da cidade, propiciam derivas, convidam a considerar o museu como parte da cidade e a cidade como parte do museu, um aberto ao outro. Em suma, o museu como zona de luz de um negativo da cidade.

 

Em algumas das suas estações, o Museu da Cidade incorpora espaços destinados à programação de exposições temporárias que designamos como gabinetes. Em cada um desses espaços — Gabinete do Som (situado na Biblioteca Pública Municipal do Porto), Gabinete do Tempo (situado na Casa do Infante, Arquivo Histórico Municipal do Porto), Gabinete de Desenho (situado na Casa Guerra Junqueiro), Gabinete Gráfico (situado na Biblioteca Municipal Almeida Garrett) e Triplex (situado no Palacete dos Viscondes de Balsemão) — desenvolvem-se programações dedicadas a campos disciplinares específicos.

 

Não ter um centro, um centro físico, entenda-se, é a grande potência do Museu da Cidade, a sua característica distintiva. Elegemos a Biblioteca Sonora como ponto simbólico de irradiação, de expansão do Museu, porque, justamente, não baseia a sua natureza discursiva na visão ou no objeto, mas na voz.

Detalhe do manuscrito L’Êpîstre d’Othéa, alegoria de Apollo e Daphne / Detail of the manuscript L’Êpîstre d’Othéa allegory of Apollo e Daphne Christine de Pisan, dedicado a / dedicated to Antoine, bâtard de Bourgogne, c. 1400 – 1410 Biblioteca Nacional de França, Departamento dos manuscritos franceses

Anatomia de uma
Nova identidade

Design Gráfico

R2

 

A morfologia do Museu da Cidade, expandindo-se em diferentes eixos pela malha urbana, assemelha-se a um rizoma. Em botânica, chama-se rizoma a um tipo de caule que cresce horizontalmente, geralmente subterrâneo, mas podendo também ter porções aéreas. Múltiplo e heterogéneo, desenvolvendo-se aleatoriamente, o rizoma é uma poderosa metáfora viva, recorrentemente utilizada no campo das ciências do pensamento humano.

Partindo desta configuração oriunda do mundo das plantas e vertendo-a graficamente, para a folha de papel, sob inspiração da poesia visual e sonora, nomeadamente a partir da tradição do caligrama, os R2, autores da nova identidade visual do Museu da Cidade, reinventam a imagem do museu, libertando-a do determinismo da uma marca-logotipo, tornando-a líquida e dinâmica, em movimento transformativo perpétuo.

Numa lógica de reconhecimento afetivo ao espaço e à vivência da cidade do Porto, os R2 vinculam a identidade tipográfica desta nova identidade às placas toponímicas de diferentes períodos históricos, redesenhando a letra Salmanazar, criada pela designer Juliette Collin.